Estudar o futuro requer habilidade especial no contato com o ambiente externo em suas diferentes matizes temporais e em suas complexas multidimensões. A partir de novos horizontes, internalizamos novos modos de pensar e adotamos novos comportamentos.

Tem sido esse o movimento exploratório dos futuristas e de todos os que desejam aprender a transitar pelas mudanças. Só que essas mudanças estão num movimento hiperacelerado, provocando o que Alvin Toffler, um dos ícones do futurismo mundial, já havia previsto na década de 70 do século 20: o choque do futuro.

Estamos diante de mudanças intensas em tempos curtos. A sociedade pós-industrial tem passado por esse choque com sérios efeitos colaterais no seu aparelho psíquico. Proliferam as doenças pós-modernas, provocadas por níveis de ansiedade e distúrbios psiquiátricos sem precedentes.

O choque do futuro é um fenômeno relacionado com o tempo, um produto do ritmo grandemente acelerado das transformações que ocorrem na sociedade. — Alvin Toffler

São os efeitos da transitoriedade das relações não só entre as pessoas como também entre pessoas e coisas. São tempos de modernidade líquida, como diz o filósofo Zygmunt Bauman.

Numa era em que se propagam e aplaudem as mudanças exponenciais e se profetizam caminhos de abundância pelos gênios da tecnologia mundial, ao mesmo tempo se escondem ou se ignoram as debilidades psicológicas que crescem a cada dia frente à incerteza e à falta de clareza de onde estamos saindo e para onde estamos indo.

Para potencializar esse choque, profetas da era digital trabalham para instalar o medo e atrofiar o potencial imaginativo de quem está perdido, em busca de uma luz no horizonte no meio das nuvens dessa transição.

Olhando para o futuro de dentro para fora

Diante dessa transição nublada, precisamos urgentemente começar a olhar para o futuro de dentro para fora. Somos a única espécie biológica que foi capaz de destruir grande parte dos recursos ecológicos externos, assim como também somos a única espécie capaz de olhar para a nossa ecologia interna.

Como estamos respondendo às mudanças? Como nos relacionamos com o mundo? O que somos? O que fizemos? Como estamos? O que queremos? Para onde vamos?

O que fazer diante do mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo)? Apenas assistir às mudanças ou fazê-las acontecer? Para fazer a mudança desejada acontecer, não há outro caminho senão o de acessar com vigor nosso mundo interior, o qual tem sido pouco explorado no Futurismo atual.

Houve tempos em que no palco do mundo, grandes futuristas como Oliver Markley (que quando estudei Futurismo em Houston, EUA, foi meu professor de “futuros visionários” e “métodos intuitivos”), Jean Houston, Eleonora Masini, Duane Elgin, Willis Harman, Elise Boulding, Hazel Henderson (minha eterna mentora no tema da sustentabilidade e economia colaborativa), Riane Eisler e Barbara Marx Hubbard iluminavam os caminhos do nosso porvir e nutriam corações e mentes com fé no ser humano.

Mas essas luzes foram cedendo espaço a fenômenos sombrios e radicalmente externos da alta tecnologia e suas promessas de salvar o mundo e nos tornar imortais.

Quem pode salvar o mundo somos nós, não são os robôs. Porque as mudanças benignas começam no despertar interior de cada ser humano com todo o seu potencial transformador. Só poderemos ser imortais se nos reinventarmos como seres humanos e mudarmos nossa relação com o Planeta. Nosso potencial é infinito mas está sendo sub-explorado no mundo digital.

Futurismo pessoal

Por acreditar que a mudança legítima é aquela que operamos de dentro para fora, criei uma experiência inédita no Futurismo, que vai explorar todo o potencial da experiência humana em sua capacidade de reinvenção e criação de futuros desejáveis, identificando oportunidades para criar novas profissões e estilos de vida.

Nos dias 18 e 19 de julho, em São Paulo (SP), o Workshop Futurismo Pessoal vai oferecer dois dias de imersão para quem deseja se apropriar do futuro e protagonizar uma vida criativa.

Seja qual for a sua situação atual, provavelmente esteja querendo algo mais. Nesses dois dias, você irá aprender a se antecipar ao que está por vir, despertar o seu potencial inovador, conectar-se com o seu propósito, responder criativamente às mudanças.

Clique na aqui para saber mais sobre o Workshop Futurismo Pessoal,

As mais incríveis inovações do século 21 virão desse novo ser humano que poderá renascer das cinzas do passado e transformar em fogueira as primeiras faíscas do futuro, fortalecido pela informação, aliado com as tecnologia, revigorado pela conexão com o todo.

Uma das mais importantes contribuições do Renascimento para a história da humanidade foi a valorização do trabalho, que na Idade Média os senhores do poder circunscreveram à servidão de pobres escravos.

Já na Renascença, os trabalhadores faziam o que faziam com prazer, sendo muito bem remunerados pelas suas habilidades e criatividade.

Traduziam a vida através daquilo que produziam. Pintores, escultores, carpinteiros, sapateiros, alfaiates, ourives, joalheiros, ferreiros e tantos outros “fazedores” floresceram em seus ofícios colocando a economia a seus pés.

Na Revolução Industrial esse fenômeno se inverteu. A economia passou a impor a velocidade das máquinas e a economia de escala, massificando a produção.

Trabalho passou a ser sinônimo de obrigação e sacrifício. Trabalhadores começaram a correr atrás da produtividade para fazer ampliar o acesso a bens e acompanhar a aceleração dos novos tempos.

Apesar de já termos ingressado na era da informação, a que muitos chamam de era pós-industrial, ainda estamos vivendo como se fôssemos novamente servos, só que dessa vez não servindo a senhores poderosos mas nos submetendo àquilo que nós mesmos criamos: as máquinas, entre elas, o relógio.

Para que tantas tecnologias se trabalhamos cada vez mais e nos divertimos cada vez menos?

Nos ultimos dez anos, ainda no curso da globalização que demanda crescente competitividade, estamos na exaustão de corpos e mentes, como se vivêssemos uma ressaca, saindo de um sistema moribundo e desgastado, querendo ingressar num modelo mais viçoso, equilibrado e sustentável.

Estamos tentando resgatar um valor precioso que haviamos esquecido pelo frênesi do relógio: o bem viver.

Facilitados pela crise financeira e pelas ferramentas tecnológicas em profusão, sentimos a escassez de recursos tangíveis, começamos a enxergar a abundância dos recursos intangíveis, que o futurista Alvin Toffler identificou como riqueza revolucionária.

O dinheiro está dando lugar a outras moedas de troca que se traduzem por outros valores não-tangíveis como tempo, criatividade, solidariedade, colaboração.

Começamos a descobrir que existe vida abundante num mundo que esquecemos de reconhecer, e que a economia industrial apagou dos registros contábeis oficiais. De trabalhadores estamos nos tornando produtores.

Cada vez mais produzindo e consumindo ao mesmo tempo, como o próprio Alvin Toffler profetizou no inicio dos anos 80 quando escreveu um capítulo inteiro no livro “A Terceira Onda” sobre o fenômeno do Prosumidor (aquele que é produtor e consumidor).

No Renascimento havia poucos produtores como Leonardo Da Vinci e Michelângelo — gênios dotados de talentos fenomenais.

A produção era também restrita, porque nem todos eram gênios e talentosos como eles — a ponto de dependerem de suas mãos, mentes e corpos para ganharem o pão de cada dia.

Não havia ferramentas tecnológicas como as que temos hoje e que nos permitem fazer coisas impensáveis há pouco tempo atrás.

Somos prosumidores, consumidores-autores, fazedores. Estamos fazendo parte da revolução dos “Makers”, versão tecnológica do que antes se chamava “faça-você-mesmo”.

O que é ser um Maker? É ser um Michelangelo intermediado pela Internet, pelos aplicativos de produção de vídeos, pelas impressoras 3D que permitem fabricação individual de qualquer bem de consumo (até medicamentos), pela robótica, pelos aparatos de inteligência artificial raciocinando mais rapido que nossos cérebros.

Podemos fazer muitas coisas sem ir ao escritório, sem sair de casa, sem ter que respirar ar poluído no trânsito.

No futuro poderemos consumir sem ter que comprar. Faremos quase tudo e muito mais. Estamos apenas no começo dessa revolução que eu chamo de Neo-Renascimento do Trabalho.

A convergência tecnológica integrando o virtual com o físico, a biologia com a computação, a inteligência artificial com a inteligência humana passará a nos servir e nos render glórias, assim como os milionários mecenas rendiam glórias aos gênios renascentistas.

Não podemos cometer o mesmo erro que cometemos com a revolução industrial. Em vez de fazermos as máquinas nos servirem para vivermos com mais tempo livre, passamos a servir as máquinas e a trabalhar mais (e apesar delas).

O mercado de trabalho poderá se transformar em paraíso (na parceria produtiva entre trabalhadores autorais e tecnologias) ou em inferno (na submissão destrutiva do trabalhador superado pelas tecnologias e excluído do sistema econômico).

As legislações e os sistemas de governança — para salvar a humanidade de uma crise sem precedentes — deve adotar a direção correta, com visão de longo alcance e com foco na sustentabilidade das pessoas e da natureza.

Estudo realizado pelo Projeto Millennium (“Trabalho e Tecnologia 2050”) indica que se nada for feito para expandir e favorecer novos modelos de trabalho, o desemprego será massivo, em torno de 50% até 2050.

Diante dessa grande revolução que está se acelerando, os empregadores devem começar a se movimentar seriamente na direção de novas formas de produzir e comercializar seus produtos e serviços. Reinventar-se é o imperativo desses próximos 10 anos.

O estado não é de conforto, mas é importante lembrar que é em situações desconfortáeis e em momentos de transição que residem as grandes inovações.

Originalmente publicado no Diário do Comércio em 7/12/2015

Em 2008 fui estudar no Schumacher College, (Totnes, sul da Inglaterra) querendo aprofundar meu conhecimento sobre a sustentabilidade -tema que até então achava que dominava, dando palestras, escrevendo artigos, oferecendo consultorias.

Fui atrás de um tema instigante: o pós-desenvolvimento. Já nas primeiras aulas do programa “Development: What Next?” (Desenvolvimento: o que vem depois?) me deparei com o pensamento radical (no melhor sentido da palavra) de Vandana Shiva e Gustavo Esteva. A cada instante só lembrava daquela paráfrase grega do “sei que nada sei".

Durante o curso, o impacto foi crescendo. Eram descobertas fascinantes na primeira semana. Com a mente revirada do avesso, resolvi passar uma noite em claro para refazer uma apresentação que iria expor na Bélgica por ocasião de uma conferência de mulheres cujo tema central era o desenvolvimento feminino.

Dei uma escapada do curso e fui para a cidade de Liége atender o compromisso. Iniciei minha apresentação formulando uma questão que mudou o rumo dos debates: que tipo de desenvolvimento nós, mulheres, queremos? 

Voltei para a Inglaterra e concluí o curso. Com a cabeça ainda do avesso, passei a refletir sobre esse desenvolvimento fabricado pelo poder masculino e pelos países economicamente mais fortes.

Essa reflexão não só elevou meu nível de consciência sobre o que estava diante dos olhos (e que eu ainda não estava enxergando bem), mas também antecipou o futuro que já emergia do meu desconforto com a realidade que tem afetado especialmente as mulheres.

De lá pra cá, tenho pensado na proximidade construtiva entre o universo feminino e os novos modelos de desenvolvimento, pautados pela colaboração entre seres, comunidades, cidades e nações.

Que desenvolvimento é esse?

Em vez de fomentar a inclusão, a integração, o cuidado e o acolhimento, tão próprios do universo feminino, esse mundo que se diz desenvolvido tem se sustentado na segregação, exclusão e fragmentação dos sistemas humanos e naturais, fazendo a sua própria espécie chegar cada vez mais perto do fim. 

O desenvolvimento capitalista tem gerado enormes riquezas para alguns, mas devastado o planeta. A biodiversidade está em extinção a uma taxa mil vezes mais rápida do que a taxa natural observada nos últimos 65 milhões de anos

Não foi capaz de gerar bem-estar humano em larga escala (de acordo com recente estudo do Centro para a Saúde e Meio Ambiente da Escola de Medicina de Harvard).

Há muito o que ser reparado e reconstruído pela ótica feminina. O ônus da devastação ecológica e do crescimento irresponsável pesa ainda mais sobre as mulheres em suas múltiplas funções sociais e em sua condição biológica de quem gera a vida.

Não há melhor momento do que esta crise para repensarmos o tipo de desenvolvimento que queremos e como inserir princípios femininos que traduzam a quintessência de um mundo pós-desenvolvido.

O desenvolvimento do crescimento ilimitado não pode continuar justificando a destruição ambiental e prejudicando a qualidade de vida da humanidade, em nome do crescimento do PIB.

Para entender o desenvolvimento tal qual foi concebido nos últimos cinquenta anos, temos que passar pela histórica dualidade entre os que “possuem” e os que “não possuem”, entre o Norte e o Sul, entre os desenvolvidos e os subdesenvolvidos.

Esse é um modelo criado pelos vencedores da Segunda Guerra, em particular, pelos EUA que passaram a orquestrar a economia mundial na base da dominação e da exclusão. 

A felicidade que antes era preenchida pela suficiência foi substituída pela necessidade insaciável que movimenta os mercados e a roda-viva da economia, perpetuando a dependência do consumo e acendendo a chama da ganância.

Populações inteiras e plenas de potencial criativo foram colonizadas pela ideia de que há algo além de suas possibilidades, gerando um sentimento de eterna frustração em torno daqueles que não foram incluídos no sistema econômico.

O Dia Internacional da Mulher não é apenas para cumprimentar as mulheres que admiramos, mas também para lembrar que depois de cinquenta anos de revolução feminista as mulheres carregam o maior peso da desigualdade. 

Falando das brasileiras: a cada 12 minutos morre uma mulher vítima de violência doméstica; ocupam precariamente 8% dos cargos políticos do país.

Representam globalmente 70% dos analfabetos e apesar de serem as responsáveis pelo cultivo da maior parte dos alimentos que comemos, não têm acesso à propriedade das terras.

Das duzentas maiores empresas brasileiras apenas três têm uma mulher no comando e certamente muitas delas sob modelos de liderança masculinos hostis à sua realidade feminina.

Diga-se de passagem, já há algum tempo, uma corrente de mulheres bem-sucedidas em suas profissões, competentes e que ocuparam cargos importantes nas empresas, abriram mão de sua carreira para cuidar da família em busca de um alivio emocional.

Desenvelopando o desenvolvimento

Realmente não é bem esse o desenvolvimento que vai fazer a humanidade florescer e tornar possível a vida na Terra. Em resposta a esse insustentável modelo, muitos movimentos e inovações estão (des)envelopando esse desenvolvimento que na gênese da palavra traduz o des-fazer do que poderia já estar feito, do des-envolver daquilo que poderia envolver o coletivo no econômico construtivo.

Grandiosas mudanças estão emergindo como frentes não só de resistência como (e principalmente) de evolução.

Somos todos da geração pós-guerra e vivemos ainda o desenvolvimento revestido de crescimento insustentável. Estamos cada vez mais deslocados no ambiente de trabalho.

Queremos pular o muro para entrar no quintal dos empreendedores que fazem do Brasil destaque mundial entre os que fazem por conta própria (estudo GEM Global Entrepreneuship Monitor de 2016).

Sistemas educacionais arcaicos já esgotaram nossa paciência, e principalmente a paciência dos que ainda têm de sentar em bancos escolares pontualmente. Mas muitas inovações começam a transformar escolas em centros de genuíno saber. 

Nesse fim de ciclo aparecem os sintomas como, por exemplo, as erupções conservadoras da era Trump e a atual onda conversadora pipocando pelo mundo.

Mas o futuro está mais perto do que se imagina. Grandes transformações estão a caminho. Uma nova civilização já está germinando.

A cultura patriarcal que incorporamos durante oito mil anos está por um fio, seja na sala de aula, no trabalho ou dentro de casa.

A visão integral da realidade está desinstalando a velha ideia de separação entre Ciência e Espiritualidade, Norte e Sul, Razão e Emoção, Feminino e Masculino, Esquerda e Direita, Trabalho e Lazer, Humanidade e Natureza.

A competição já é palavra indigesta nas rodas de conversa. A colaboração entra como valor nos planos de negócio. O sistema financeiro começou a colapsar em 2008 (ano em que estudei no Schumacher) e ainda está colapsando. 

Novos indicadores entram nas agendas públicas fragilizando a lógica do PIB. Países com mais recursos naturais já representam contrapartida na falência dos recursos financeiros.

O acordo de Paris consolida a constatação de que o planeta está fervendo, incluindo a febre raivosa do Trump. 

Escolas renomadas de business já incluem a felicidade como indicador evolucionário. Valores femininos já integram o perfil das cartilhas de RH das grandes empresas.

O mundo pós-desenvolvido requer um olhar mais feminino simplesmente porque “uma mulher é um circulo pleno; dentro dela está o poder de criar, nutrir e transformar.

"Uma mulher sabe que nada pode se concretizar sem luz. Vamos chamar a voz e o coração da mulher para nos guiar nesta era de transformação planetária”. (Diane Mariechild).

O mundo está bem mais rico, mas também muito mais desigual. Parte dessa desigualdade tem, entre suas principais causas, a intensidade tecnológica, que vai crescendo, e os empregos acabando. Ao longo da História, as máquinas foram substituindo os humanos, mas os empregos foram se renovando, se reinventando, fazendo com que ocupações humanas extintas dessem lugar a novas profissões. Até pouco tempo atrás, podíamos dizer que as reposições conseguiram conviver ou até ultrapassar as eliminações no mercado de trabalho.

Mas agora está sendo bem diferente.

Depois das três revoluções industriais e todos os impactos deixados na economia, estamos entrando na quarta revolução e ela vem bem concentrada, não só na geração de riqueza, mas também nas inovações biológicas, tecnológicas, cognitivas e informáticas, como num destino convergente e exponencial capaz de eliminar 50% dos empregos até 2050.

Trabalho/Tecnologia 2050

Crescimento sem geração de emprego representa a nova ordem econômica. Investir em capital e tecnologia é mais vantajoso do que investir em trabalho humano.

Além de atividades físicas, agora também as atividades mentais começam a ser substituídas pela inteligência artificial. O que era antes ficção científica passou a ser essa realidade que nos assombra.

Diante desse desemprego em massa iminente, o que realmente está sendo feito para que a humanidade possa se sustentar e sobreviver? Que estratégias de longo prazo estão sendo encaminhadas para o futuro? Os governos, as escolas e as empresas estão conscientes do que tudo isso vai representar para as novas gerações?

A impressão é a de que todos estão esperando acontecer aquilo que já sabemos e já está em curso: conhecimento sucateado, desemprego estrutural, trabalho informal crescente, demissões em massa e  carteiras de trabalho amareladas.

Fica difícil prever até onde vão chegar os avanços da inteligência artificial, da robótica, da impressão 3D/4D, da biologia sintética, dos drones, da nanotecnologia e suas poderosas sinergias.

Até onde irão os avanços tecnológicos? (Crédito: Shutterstock)

Para poder clarear um pouco esse céu nublado e ajudar a criar estratégias para responder a esse suposto conflito entre ser humano e máquina, o Projeto Millennium (rede global de pesquisadores futuristas) está conduzindo um estudo com 50 países.

Aqui no Brasil, o Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP está coordenando um processo de construção coletiva que começou com três cenários compartilhados publicamente.

Para reunir lideranças em torno do tema e exercitar a criação de propostas criativas, foi realizado um workshop inicial em São Paulo no final de outubro de 2016, com a presença de Jerome Glenn, fundador do projeto Millennium e autor dos três cenários Trabalho/Tecnologia 2050 já traduzidos em diversos idiomas.

Os cenários Trabalho/Tecnologia 2050 já começaram a pautar o planejamento de alguns países como Argentina, Grécia, Italia, Alemanha, Espanha e Coreia do Sul que, além do Brasil, se juntaram em torno de sistemas de inteligência coletiva para influenciar políticas públicas.

Como serão os cenários Trabalho/Tecnologia 2050? (Crédito: Shutterstock)

Para que esses cenários pudessem ser desenvolvidos, mais de 450 futuristas e especialistas compartilharam suas visões e projeções. Eles requerem leitura cuidadosa e atenta.

Como todos os cenários bem feitos, eles são descritos no presente com detalhes na medida certa e apresentam impactos inter-relacionados muito bem pensados para que o leitor possa se transportar ao futuro e senti-lo (a versão em português está publicada na Internet).

Aqui a apresentação do que cada um descreve, para instigar a leitura e instigar a todos os que já querem protagonizar esse novo mundo, que dependendo de nossas atitudes e decisões poderá ser desesperador ou radicalmente diferente de tudo o que já imaginamos viver.

Cenário 1 – Está complicado: um pouco de tudo

Uma projeção tendencial do business-as-usual do aumento da aceleração tecnológica considerando tanto a inteligência quanto a estupidez percebida nas decisões que foram tomadas.

Adoção irregular dos avanços tecnológicos; alto desemprego pela falta de estratégias de longo prazo, sucesso misto na aplicação da renda básica universal. Poderes dos gigantes corporativos foram além do controle do governo nesse mundo governo-corporação, 3D-virtual e multipolar em 2050.

Cenário 2 – Agitação político-econômica: o desespero no futuro

Os governos não se anteciparam aos impactos da inteligência artificial geral e não tinham estratégias preparadas para receber o desemprego que explodiu nos anos 2030 deixando o mundo de 2050 em agitação política.

A polaridade social e política cresceu de diversas formas. A ordem global se deteriorou e se transformou numa combinação de nações-estados, megacorporações, milícias locais, terrorismo e crime organizado.

Cenário 3 – Se os seres humanos fossem livres: a economia autorrealizável

Os governos se anteciparam aos impactos da inteligência artificial geral, conduziram extensivas pesquisas em como aplicar sistemas de renda básica universal e promoveram auto emprego.

Artistas, personalidades da mídia e profissionais do entretenimento ajudaram a criar uma mudança que transformou a cultura do emprego numa cultura da auto realização.

Que caminho vamos escolher?

A moral de todas essas histórias fica valendo desde já. Se não tivermos emprego, que tal pensarmos em trabalhar por prazer, aprender aquilo que nunca pensamos em aprender, revelar talentos ocultos, retomar relações perdidas, sermos mais felizes e nos reconectarmos com o trabalho de formas mais divertidas e significativas?

As novas economias (criativa, colaborativa, compartilhada, circular) em expansão já representam caminhos abertos para começarmos a reorientar nossas rotas. Se a máquina irá trabalhar, pensar por nós e através de nós, em vez de tentar enfrentar o inexorável, por que não investir naquilo que nos liberta do relógio?

Por que não começarmos a reorientar nossas rotas? (Shutterstock: Crédito)

Afinal de contas, vamos viver muito mais e o tempo será todo nosso. Como ancestrais que já somos, na velocidade das mutações sociais e econômicas, podemos juntos dar as mãos e acelerar essa grande obra milenar: reinventar nossa vida na Terra e semear novos mundos para nossos filhos, netos, bisnetos e gerações futuras.

As consequências de escolhas acertadas serão intensas e transformadoras para criar uma nova civilização. Estamos diante do maior desafio da história: o de provar que realmente somos inteligentes, muito além das máquinas.


Publicado originalmente no Diário do Comércio

A revolução transetária é nativa do mundo transitório. Uma revolução que emerge da construção de identidades que não mais se enquadram nas faixas etárias categorizadas pelos estudos demográficos.

Viver no mundo sem idade é para todos,   não somente para os mais velhos. Porque as limitações etárias afetam a todos. Já somos seres transetários: indivíduos em transição de tempos, entre idades. A pensar na velocidade do tempo transitório, é bem provável que seja mais uma nova palavra a ser incluída em breve no nosso dicionário oficial.

É disso o que trata a revolução transetária: do potencial do que somos, não do que deveríamos ser pela idade, como estabelecem as classificações geracionais.

Vida transetária

Transetários são todos aqueles que vivem no mundo transitório das idades que se mesclam pela alta longevidade e pela tecnologia. Não permitem que limitações lhes sejam impostas pela idade registrada em suas certidões de nascimento.

Buscam superar a idade fisicamente (através de intervenções estéticas ou medicamentos rejuvenescedores), psicologicamente (através da incorporação de novos estilos de vida), filosoficamente (incorporando novos valores a mentes antes fossilizadas).

Nesse caso, superar a idade não é apenas superar as barreiras impostas pela velhice e transmutar-se num eterno jovem. Diz respeito a escolher a idade que melhor lhe traduz em diferentes momentos e contextos.

Você pode estar na faixa dos cinquenta e trabalhar com jovens empreendedores numa startup; seu estado relacional pode lhe fazer sentir-se mais jovem ao lado deles e eles por sua vez, sentirem-se mais experientes só de ficar ao seu lado.

Você também pode ter 20 anos com pais cinquentões bem louquinhos, daqueles que costumam surpreendê-lo a cada dia, e daí você não aguenta e dá puxões de orelha nos velhos assanhados e manda tomar juízo da próxima vez.

Uma outra situação é viver a vida como se não houvesse o tempo. De repente se depara com uma matéria na revista semanal que apresenta um infográfico multicolorido mostrando faixas etárias correspondentes a diferentes classificações. Você olha e se assusta com uma faixa etária que descobriu que é sua, e se incomoda, porque nada tem a ver com você.

Já somos seres transetários (Crédito: Shutterstock)

As classificações etárias têm sido utilizadas desde os anos 90 por pesquisadores e profissionais de marketing com objetivos mercadológicos para segmentação de produtos e serviços e geração de lucros em todos os setores da economia. Os fundamentos sociológicos e demográficos (raramente psicográficos) utilizados nessas classificações já não estão mais traduzindo a complexidade humana.

Revolução transetária

Os fabricantes podem estar perdendo grandes oportunidades de inovação por uma visão estreita do que são os consumidores. Somos muito mais que classificações por nomes e letras. O mundo é outro e a longevidade humana horizontaliza as relações entre todos. Uma revolução já está mudando as relações sociais entre todas as idades, fazendo transcender as classificações etárias cujo sentido tem perdido força porque:

Está na hora de repensarmos velhos mantras condicionantes de falsas identidades. Por que não começamos a nos planejar para nos desenvolvermos em vez de nos preparar para envelhecermos? Por que em vez de representarmos gerações não integramos todas as idades em clusters de soluções e marcos de transformação planetária?

É bem possível que tanto a integração etária quanto o relacionamento intergeracional pode gerar abordagens transdisciplinares transformadoras para os desafios complexos do mundo.

Quando nos libertarmos dos padrões que nos são impostos pelos ditames mercadológicos criados pelos técnicos de marketing, estatísticos e demógrafos, poderemos reduzir os estereótipos que os adolescentes têm em relação aos idosos e da intolerância que os idosos têm em relação aos adolescentes.

Necessitamos de condições adequadas que comecem na base da educação e que possam promover interações saudáveis e criativas entre todas as gerações, reduzindo barreiras, reunindo interesses e propósitos comuns que transcendem as idades.

Era transetária

Na era transetária o que passa a lhe definir? Os institutos de pesquisa ou sua narrativa pessoal? Como gerar valor para o mundo a partir de sua rica realidade multifacetada?

O que o seu futuro preferível lhe apresenta nos próximos 20 anos? Envelhecimento ou desenvolvimento? Anos de vida ou realização?

Quando você pensa no que tem adiante, consegue ir além da idade que tem?

Quando não nos fixamos nos limites alcançamos territórios muito mais amplos. O mundo transetário nos liberta das amarras do tempo e nos abre novas fronteiras para irmos além.

A transformação etária é inevitável e dela está brotando a revolução transetária. Imaginar e sonhar hoje é o caminho para criar o futuro desejado amanhã, com menos barreiras artificiais impostas por classificações etárias, de gênero, raça, religião, ideologia e classe. Precisamos de conexões humanas mais genuínas porque é na autenticidade das nossas relações é que poderemos responder com vigor os múltiplos desafios e sermos mais felizes.


Rosa Alegria é futurista e CEO da Pangera, startup que promove relacionamentos intergeracionais saudáveis e criativos.

O Brasil foi batizado como o país do futuro, mas a política do país tem tido  confronto histórico com o longo prazo. Os modelos de governança perderam o elo de esperança entre todos os setores da sociedade, como se tivessem sequestrado todos os sonhos brasileiros. Com a atual crise política sem precedentes que os brasileiros enfrentam, o descontentamento vago e difuso começou a se transformar em descrença, resultando em fadiga em relação a um futuro que parece nunca chegar. A corrupção generalizada e o desmantelamento ético das instituições governamentais colocam o país na encruzilhada em relação ao seu futuro. A política brasileira tem sido, ao longo da história, um obstáculo ao avanço do planejamento de longo prazo que tornaria o Brasil o país do futuro. Oscilando na criação de seu futuro, o Brasil parece preferir ser o país do presente.

A governança tradicional é cega e irresponsável em relação às implicações e decisões de longo prazo. A crescente complexidade dos problemas requer um pensamento complexo.

A governança tradicional é cega e lenta para as implicações de longo prazo de suas decisões. As opções são lineares diante de problemas complexos que exigem integração sutil e contínua da política com o gerenciamento de mudanças.

De muitas maneiras, o sistema  capitalista dentro de um governo  democrático parece ser ideal para a adaptação às mudanças tecnológicas aceleradas.  No entanto, em meio à euforia e o deslumbramento pelas promessas tecnológicas, persiste a visão atrofiada de quem governa.

As tecnologias  são usadas para atender desejos imediatos, são gratificações instantâneas. Existe um vício pelo curto prazo, uma doença que foi fatal na construção de um projeto nacional.

Sem política não há futuro; os governadores precisam agir proativamente; mas eles só agem reativamente, apagando incêndios. Através desta atrofia imaginativa e temporal, o Brasil precisa de um grito político que enfrenta a melancolia reacionária, a auto-preservação paralisante. O futuro foi dramaticamente segregado da nossa  política.

Como a utopia brasileira se tornou uma colcha de retalhos

A visão de futuro brasileira nasceu pela utopia de duas  obras literárias: A História do Futuro, primeira publicação futurista escrita por um  jesuíta português: o padre Antonio Vieira. A outra é Brasil, um país do futuro, cujo autor é Stefan Zweig, refugiado alemão durante a segunda guerra mundial.

O futuro sonhado pelo colonizador jesuíta seria um Brasil cristão dominado pelo império português, que se materializou no século XIX; o futuro retratado pelo imigrante era uma projeção de uma civilização que ele amava.

Apesar da importância destas duas obras, tanto a visão de dominação como a visão de contemplação elas não foram capazes de instalar na cultura brasileira o valor da antecipação como mecanismo de desenvolvimento estrutural. A resistência ao futuro imperou.  Eu associo essa resistência a uma colcha de retalhos.

Colorida, remendada, uma parte antiga, outra parte nova, uma grande mistura resistente a todas as ameaças. Essa metáfora não tem necessariamente um significado negativo, embora uma colcha de retalhos represente algo multifacetado, desintegrado, separado por vários trechos.

A colcha é uma mistura de linho, malha, poliéster, vários tecidos difíceis de rasgar. Os brasileiros são peças resistentes e resultam de uma politica feita aos pedaços.

Sempre nos misturamos em raças, religiões, culturas, assim como misturamos 35 partidos políticos. Vivemos com outras personalidades e em cada cidadão instalaram-se os múltiplos países que existem num só.  Sem mencionar os futuros interrompidos, como se fossem remendos de uma grande colcha, em todos os momentos políticos.

A atual crise é sintoma tardio da ausência de um projeto nacional, e a presença de futuros fragmentados, como se fossem as peças de uma colcha nacional. A euforia e o imediatismo de nossas lideranças sempre triunfaram sobre o longo prazo.  Nunca tivemos um plano nacional de longo alcance.

Os que foram criados, estão ainda hoje arquivados. Tivemos pedaços de projetos (ou vários projetos nacionais) que num próximo artigo irei relatar.

O futuro apesar da política

O sociólogo espanhol Manuel Castells Networks abre seu livro Redes de Indignação e Esperança (2013)  relatando a ruptura que ocorreu com a Primavera Árabe e com o movimento Occupy de Wall Street:

Os magos das finanças passaram de objetos de inveja pública a alvos de desprezo universal. Os políticos foram expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A confiança desapareceu e confiança é o que une a sociedade, o mercado e as instituições.

Os jovens hiperconectados pelas ágoras virtuais tentaram fazer transformações e derrubar governos tiranos. Esse é um novo tempo em que os planos prospectivos criados por pequenos grupos e elites já não vão mais funcionar.

O futuro para poder ser realidade presente necessita ser criado coletivamente e ser apropriado por todos os setores da sociedade. Este é um novo momento. Planos prospectivos criados por pequenos grupos e elites não funcionarão mais. O futuro da nação precisa ser criado coletivamente.

No Brasil, 92% dos jovens acreditam em sua própria capacidade de mudar o mundo e 70% são mais informados do que seus pais. As tecnologias de informação e comunicação e as tecnologias móveis estão sendo criadas para permitir o monitoramento da gestão pública e o acesso democrático às informações sobre os governos.

É um fenômeno democrático irreversível que pode mudar a perspectiva do futuro até o tempo reservado àqueles que detêm o poder político.

Por todas as iniciativas de planejamento que existiram em nossa história, podemos constatar que o futuro brasileiro é resistente à política, mas não o suficiente. Perdemos de vista o longo prazo.

De retalho em retalho, a colcha se amplia e se interrompe de forma recorrente o planejamento do país por falta de propostas voltadas ao futuro. Assistimos ao abandono de projetos nacionais sempre dando prioridade a emergências de contas públicas que resultam em intermináveis medidas orçamentárias e conjunturais, dando alivio imediato porém sem olhar para o amanhã.

Essa atrofia temporal se manifesta na crise atual por falta de planejamento de longo prazo, que afeta a todas as áreas e é um obstáculo para o desenvolvimento sustentável. Além de interromper nossos futuros, essa política que se encontra em decomposição moral perdeu o vínculo com o que restava de esperança entre todos os setores produtivos e atores sociais. Como se os sonhos dos brasileiros tivessem sido sequestrados.

De fato o Brasil parece preferir ser o país de presente

Mas a história mostra que novas eras nascem de crises profundas como as que estamos vivendo. Penso que do caos nascerão sementes do novo, germinadas pelas novas gerações.

Para que o Brasil encontre o seu destino de ser o país do futuro serão necessários novos modelos de fazer politica que incluam a democracia antecipatória (conceito de Alvin Toffler) como modelo de governança. Todos juntos criando visões de futuros compartilhadas que inspirem e faça voltar a esperança.


Esse texto foi extraído do artigo “La utopia brasileña es una colcha de retazos”  de minha autoria – publicado no Compêndio Escenários Futuros para America Latina e Caribe disponível aqui em espanhol.

Viver requer mudar e acolher a mudança. Estamos em constante transição,  num constante fluxo do tempo que nos últimos 20 anos tem se acelerado. 

A mudança tem progressão geométrica e traduz o que Alvin Tofler previu em 1984 quando previu o choque do futuro, que traduzia a incapacidade da sociedade enfrentar mudanças tão aceleradas.

Foi assim que introduzi minha palestra abrindo a primeira sessão do XI Congresso da Micro e Pequena Industria promovida pela Fiesp em São Paulo na segunda-feira (23/05), em um auditório com quase 2 mil empresários. 

Para introduzir a ideia de um tempo acelerado, trouxe a   velocidade dos tempos perguntando o que não existia há 20, 10 e 5 anos atrás e que hoje não pode faltar em nossas vidas.

Tem sido um exercício que sempre trago no contato com diversas audiências.   A sensação é sempre a mesma: o futuro está mais perto do que imaginamos e sentimos em poucos minutos que vivííamos outras vidas. 

Há 20 anos não havia nem Google, nem telefone celular, nem o euro que transformou a geoeconomia mundial.

Há 10 anos não havia facebook que trouxe a liquefação das relações sociais. Dá até mais assombro quando pensamos que há apenas 5 anos, gigantes da economia intangível-compartilhada como Uber e AirBnb não existiam e que hoje valem mais do que gigantes da era fóssil como Petrobras e Vale.

O mundo tem sido recriado nesses últimos (e apenas) 5 anos. Entre 2010 e 2015 tivemos mudanças que continuam transformando nossa realidade: a oferta mundial de petróleo aumentou 11% e o preço caiu 60%; o acesso ao celular cobria  19% da população e em 2015 chegava a 75%; o Facebook tinha 600 milhões de usuários, em 2015 passou para 1,6 bilhoes; o  You Tube recebia 24 horas de vídeo por minuto e passou a receber 400 horas; o eBay vendia seis ternos por minuto e passou a vender 90; o AirBnb, de 47 mil passou  para 17 milhões de clientes.  Isso tudo em apenas 5 anos!

Em maior escala, a  história tem também comprimido nossa relação com o tempo. Só observar o que aconteceu nas mudanças de eras.

Da Agricultura para a Indústria foram necessárias dezenas de milhares de anos.  Já entre a  Era Industrial e a Era da Informação se passaram apenas 200 anos.

A atual transição rumo à Era Pós-Digital ou à Era da Hiperconectividade tem passagem prevista de apenas 50 anos. 

Realidades fisicas e cibernéticas se fundem na direção de algo ainda dificil de se prever. 

A indústria vai sobreviver aos abalos sismicos da transformação digital e da transição econômica?

Pela primeira vez em sua  história. o Fórum Econômico Mundial, em janeiro desse ano, reuniu os donos do poder nos altiplanos de Davos em torno de  uma preocupante realidade que está afetando seus interesses: a crise do capitalismo.

Os debates foram para identificar novos modelos econômicos, centralizados no tema “A quarta revolução industrial”.

Ainda sob o efeito da crise financeira de 2008 que continua impactando a economia mundial, fizeram uma revisão do velho modelo, colocando-o na berlinda e  revisitando dolorosas evidências desse processo em decadência: a miséria, a desigualdade, os crescentes conflitos (intra e inter países), a degradação ecológica e pasmem, colocaram no debate o fantasma da concentração de riqueza. 

Quem poderia imaginar que esse auto-enfrentamento iria acontecer entre os que (eles mesmos) provocaram essa situação?

Com a quarta revolução industrial traçada pelo modelo de uma Industria 4.0 podemos contar com a descontinuidade de velhos modelos de produção para a convergência tecnológica NBIC (nano, bio, info e cogni) que irá passar por todas as areas do conhecimento como física, quimica, medicina, engenharia, computação e educação como um todo.

Computação na nuvem, internet das coisas, big data, redes e sensores, robótica, biologica sintética, medicina digital, bioeletrônica, computadores moleculares, nanomateriais, inteligencia artificial, impressão 3D/4D. 
Qual será a função da indústria quando estivermos todos aparelhados com estruturas de fabricação em nossas casas, produzindo e consumindo o que produzimos?

Os sistemas de transportes serão transformados em transferência de arquivos digitais da industria para a cada de cada pessoa. Quantos impactos mais estão por vir, 

Já estamos entrando nessa  Industria 4.0 mediante a hiperconectividade que não tem limites. No ano passado um bebê canadense se salvou da morte pelo implante de um coração produzido por uma impressora 3D. E a caminho, 

Já em modelos funcionando em testes, a impressão 4D que permite a autoreplicação de materiais, produzidos com o que chamam de hidrogel que em contato com a água permite que mudem de forma.  Imaginem imprimir uma bola, guardá-la, e tempos depois mergulha-la em água para que se transforme numa mesa de pingue-pongue.

No ano passado foi lançado o  primeiro scanner molecular que revela em tempo real todos os nutrientes de um alimento, o que vai tornar bulas e rótulos obsoletos. 

Fim da era fóssil e início da era solar, como já previu a futurista Hazel Henderson no inicio dos anos 80 com a obra-prima “A era da idade solar”. A revista Exame noticiou que as grandes petroleiras mundiais estão tendo que vender seus ativos e ao mesmo tempo,  Al Gore  que antes alarmou o mundo com dados cientificos do aquecimento global, hoje celebra os animadores e surpreendentes investimentos nas energias limpas, com previsões que superam 50 vezes o estimado em 2010. 

As novas economias emergentes (colaborativa, compartilhada, criativa, entre outras) têm marcado novas alternativas de viver, trabalhar, aprender, se relacionar,  vender e comprar, transacionar em fluxo,  derrubando o paradigma da escassez para o paradigma da abundância.

Moedas intangíveis cada vez mais diluídas em redes -  que vão além dos bitcoins e passam por alternativas como os programas de pontos que hoje permitem transações comerciais a  qualquer empreendimento. Moedas se desmaterializando e reinventando a lógica do  capital-dinheiro. 

Isso tudo sem falar do mundo organizacional que já há muito tempo tem passado por eliminatórias históricas. A atual  expectativa de vida das empresas listadas entre as 500 da Fortune é de 15 anos.

 Desde que a lista das 500 foi criada em 1955, 90% das empresas não existem mais e nas que ficam os CEOs não passam de seis anos no cargo, sendo substituídos pelos  gestores das  novas gerações, assim como empresas start ups são criadas por uma garotada criativa e inteligente  e vendidas por bilhões de dólares em poucos dias. 

Não resta a menor dúvida de que o futuro já chegou e começou a bater na porta das empresas, e no caso das indústrias, está dando pontapés.  

As mudanças de era  tal qual a que hoje vivemos, foram historicamente  sempre marcadas por turbulências, tsunamis, perdas e caos. 

Por essa razão, essa crise não deve ser desculpa ou fator de adiamento de planos. Ao contrário, deve nos mobilizar para sairmos do lugar confortável de fazer mais do mesmo, paralisados pelo medo de sermos incapazes ou de perdemos o que conquistamos por aquilo que antes sabíamos fazer.

Tempo de reaprender ou desaprender. O passado tem que ser referência mas não espaço de residência.  Mudar é dificil mas estagnar pode ser fatal. As indústrias, grandes, micro e pequenas,  que não aceitarem as mudanças – que são inevitáveis – terão poucas chances de sobreviverem ou estarem em situação financeiramente confortável nos próximos cinco anos.. 

A partir de tantas mudanças, a indústria 3.0  se depara com o desafio imposto pela Indústria 4.0  na busca de  caminhos para inovar não no mesmo modelo da segunda ou  terceira revoluções industriais pautadas pela obolescência e descarte.

Diante desse estado de mundo que precisa ser regenerado por processos de produção mais sustentáveis, a indústria terá que inovar com propósito e visão de longo prazo para sobreviver à velocidade do tempo e promover o  bem comum.   

“Os analfabetos do futuro não serão aqueles que não sabem ler ou escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender, e reaprender.” Alvin Toffler

É nas escolas que as novas gerações poderão aprender a criar o futuro que desejam. Afinal, só temos aprendido o passado. Que tal aprendermos também o futuro?

Olhando para trás e percorrendo os últimos vinte e cinco anos num flashback imaginativo, dá para ter ideia da magnitude das mudanças que hoje vivemos e que irão continuar mais rápido daqui em diante.

Vinte e cinco anos atrás a Coreia começava a competir com os EUA na indústria de transporte, informação e comunicação; não existia a União Europeia, nem a Organização Mundial do Comércio, nem o Tribunal Penal Internacional. Não tínhamos a AIDS, os transgênicos de toda ordem, ônibus espaciais, telefones celulares, internet… Casamento gay era sacrilégio, ensino à distância em tempo real era cena de ficção científica, consumidores colaborando na criação/produção de produtos que ele mesmo viria a utilizar, quem poderia imaginar? Grupos de aprendizagem coletiva, centros de pesquisa abertos a cidadãos comuns, livros eletrônicos Kindles descartando livros de papel, música digital disponível free nas máquinas de todos os tamanhos, a consciência de que a vida pode ter fim com o aquecimento global, tudo além da imaginação. A ovelha Dolly, o ataque às torres gêmeas e a invasão Wikileaks seriam fruto de imaginações delirantes.

No campo do ensino, as tecnologias aplicadas nas escolas eram utilizadas mais para melhorar a qualidade do conteúdo do que para potencializar a capacidade de aprendizagem. Tempos do ábaco, de atenção farta, da tabuada na cola, do estojo com cheiro de madeira, não voltam mais.

Se as tendências atuais tendem a se acelerar, vai acontecer o que o inventor-futurista Ray Kurzweill tem propagado: esse século irá assistir a mudanças tecnológicas numa escala 80 vezes maior do que no século 20. Isso sem falar no mutante quadro geopolítico do mundo que já começa a revelar uma reorganização das forças de poder do norte ao sul.

Diante desse novo mundo, o que as escolas e centros de aprendizagem podem fazer para que o choque do futuro que o Alvin Toffler profetizou nos anos 80 não seja tão intenso? Como podemos tirar proveito dessas mudanças?

Aqui alguns caminhos que percorro nesse passeio pelo futuro, que pelo que parece, já está batendo na porta.

Estudar para o futuro

Como aprender a conviver com as mudanças? Como aprender a implementá-las? As nossas escolas preparam pessoas para o que virá? Certamente não. As mudanças pelas quais passamos constantemente só poderão ser destiladas em soluções se formos capazes de nos orientar para o futuro.

Um dos aspectos que definem uma sociedade é sua atitude em relação ao tempo. O Brasil, eterno país do futuro, atuando na contramão do seu destino programado, tem se orientado excessivamente pelo presente e se mobilizado sempre para o curto prazo, o que nos torna uma sociedade atrofiada pelo imediatismo. Esse nosso insistente apego pelo presente retroalimenta nosso comportamento e nos limita na capacidade de criar um projeto de nação que fortaleça nossa autoestima, defina nossa identidade e nos eleve multidimensionalmente como referência mundial.

É nos espaços da escola que essa mudança temporal de olhar o mundo deverá ocorrer, principalmente no ensino fundamental que tem perdido toda a riqueza imaginativa inerente às crianças.

As escolas precisam reexaminar o horizonte temporal que aplica no seu sistema de aprendizagem e mudar as perspectivas abordadas nas salas de aula, já que desde nossa tenra infância, nunca aprendemos o futuro nas salas de aula. Muito pelo contrário: sempre aprendemos o passado e fomos punidos por ele, caso não conseguíssemos memorizar infinitos números e datas. Nossos cérebros foram sempre demandados a processar o que já foi e nunca o que será ou que poderá ser. Se em vez de só sermos avaliados pela capacidade de registrar o passado, engessando nosso potencial criativo, fôssemos avaliados pela capacidade que temos de imaginar mundos possíveis, o que poderia acontecer? Como estaríamos enfrentando os desafios atuais? Certamente com muito mais proatividade e segurança.

As escolas de ontem e de hoje sempre estiveram presas nesse lapso temporal. Diante dessa macrotransição histórica, precisam conectar-se com o que irá acontecer, com o que poderá acontecer e com o que poderão ajudar a fazer acontecer, preparando essa nova geração a dar sentido ao seu futuro, ao nosso futuro comum.

Novas realidades cognitivas

Estudos revelam que a exposição constante a estímulos digitais, como games, equipamentos móveis, sobreposição de imagens, pode mudar o cérebro e a maneira como ele percebe as coisas e processa a informação. Tudo indica que os cérebros dessa geração que Don Tapscott (Wikinomics) denomina de “geração digital” têm mudado.

Diante disso, ao formar profissionais para o futuro, nas escolas o aluno não pode continuar sendo passivo, restrito a apenas olhar, ouvir, memorizar. A nova proposta pedagógica sustentada pela interatividade supõe participação, cooperação, bidirecionalidade e pluralidade de conexões entre conhecimento, informação e atores participativos. O ambiente 2.0 veio expandir todas as múltiplas possibilidades na dança informativa multimídia dos hiperlinks, wikis, twitters, redes sociais diversas, criando espaços para que as escolas ocupem e façam os alunos criarem ideias a partir de imagens, inventando e reinventando tudo o que pode tocar, ver, cheirar, ouvir, respondendo a estímulos multissensoriais, transformando e construindo tudo aquilo que está ao seu alcance.

A escola deve ser esse espaço das infinitas possibilidades para deixá-las todas ao alcance dos alunos que precisam desenhar o mundo que desejam a partir de um novo imaginário e de uma nova realidade cognitiva.

Aprender a desaprender

A vez do especialista consagrado pela era industrial está chegando ao fim. A era do conhecimento requer perfis latitudinais, multifuncionais, policompetentes. Nessa era de mudanças velozes é preciso sair das amarras da especialidade e abrir as portas dos silos de conhecimento, abrindo-se para o novo. Tempo de desaprender e reaprender à luz de um novo olhar sobre a mesma realidade. Como especialistas não somos mais nada do que guardiães de um saber sem validade, resultado de um diploma também com prazo de validade.

Os principais desafios e multicrises que definem esse novo milênio (violência, globalização da inflação, escassez da água, exclusão social, volatilidade da moeda, alta no preço dos alimentos, aquecimento global e tantas outras) requerem soluções que transcendam disciplinas individuais em suas categorias (por exemplo, engenharia, geografia, psicologia, matemática, economia). Os novos programas nas escolas devem se esforçar para descobrir o que há de comum entre essas disciplinas e criar ambientes favoráveis para que os alunos identifiquem caminhos comuns que levem a uma vida sustentável. “Sustentabilidade XXI, educar e inovar sob uma nova consciência” é uma obra com visões inovadoras assinada pelo empresário Rodrigo Loures; ele se pauta no princípio da “educação na sustentabilidade” como passo evolutivo da educação ambiental, integrando todos os sistemas que afetam a vida no planeta.

A escola que vem de dentro

Afogados que estamos pelas afluências, sobras, excessos e obsolescências materiais e simbólicas, estamos sedentos de silêncio, vazio e interioridade. Sobre a interioridade, nenhuma escola trata. Como se estivéssemos vivendo apenas um lado da realidade e jogando fora todo o potencial criativo. Afinal de contas, somos completos. A única espécie com capacidade de enfrentar o mundo exterior e o mundo interior ao mesmo tempo.

Estamos tentando cuidar do mundo exterior, do botox ao aquecimento global. Mas o que estamos fazendo com relação ao mundo interior? Esse mundo no qual se ancora a nossa existência, ao qual recorremos para tomar decisões e imaginar o que queremos não está na constelação didática das escolas.

Esse deslocamento do subjetivo e do interior nos tem afastado da fonte inesgotável de riqueza que vem de dentro e no qual encontramos um infinito número de possibilidades, como se ainda não tivéssemos aberto a Caixa de Pandora de nosso destino.

O caminho está na incorporação do imaginário e do intangível em cada disciplina que compõe as grades curriculares e deixar fluir o que falta: a imaginação, o sonho, o tácito, o intocável, o não-visto. Na obra recém-lançada “Educação para a Era da Sustentabilidade”, Arnoldo de Hoyos, professor de Estudos do Futuro da PUC-SP nos inspira com visões sobre educação e sustentabilidade e nos coloca em contato com pensadores como Alceu de Amoroso Lima, que escreveu em 1954 “Meditação sobre o mundo interior”, do qual foi pinçada essa linda reflexão: “O homem completo, isto é, o homem normal é aquele que vive interiormente sua vida exterior e não sepulta em si, egoisticamente, sua vida interior”.

Viver a vida em sua intensidade e plenitude requer ir além da materialidade e alcançar valores intangíveis tão sagrados na agenda dos processos criativos. Por isso, temos que antes de tudo, instalar uma escola permanente dentro de nós, tonificar nossos sentidos, flácidos pelos modelos, construir nossos castelos e alicerçá-los de valores universais, estruturando a base dos ensinamentos que irão nos fortalecer e capacitar para viver a vida, não como ela é, mas como desejamos que seja.

Estudo do Projeto Millennium − Futuros Possíveis para a Educação e Aprendizagem 2030

O Ministério da Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos da Coreia do Sul pediu à rede de pesquisadores do Projeto Millennium, rede internacional que estuda o futuro de grandes temas da humanidade, uma avaliação de possibilidades futuras no campo da educação e aprendizagem visualizando o horizonte de 2030 como a ancoragem de planos de longo prazo.

Quais são algumas das possibilidades de ensino e aprendizagem para o ano 2030? O que podemos fazer hoje para tirar proveito dessas novas possibilidades? Já que novas ideias podem levar a caminhos inusitados, é prudente perguntar o que de negativo e o que de positivo poderia delas surgir?

Para responder a estas perguntas, os pesquisadores recolheram mundialmente as visões de 213 especialistas em educação e áreas correlatas. Essas são algumas das possibilidades voltadas ao mundo high-tech para a educação em 2030:

• Programas para melhorar a inteligência coletiva

• Conhecimento e aprendizagem just-in-time

• Educação individualizada

• Uso de simulações

• Avaliação contínua dos processos de aprendizagem individual para prevenir instabilidade emocional e doenças mentais

• Nutrição individualizada para melhor desenvolvimento cognitivo

• Inteligência geneticamente aumentada

• Uso de simulações globais on-line como ferramentas de pesquisa social

• Utilização de comunicações públicas para ajudar na busca do conhecimento

• Dispositivos de inteligência artificial portáteis

• Mapeamento completo das sinapses humanas para mapear os processos de aprendizagem

• Mecanismos para manter cérebros adultos saudáveis por períodos mais longos

• Química para o aprimoramento do cérebro

• Web 17.0 – integração de dados, análises, discussões, fóruns numa estrutura organizada e semântica. A Web Semântica que utiliza realidade virtual e contém um sub-sistema inteligente

• Sistemas integrados de aprendizagem ao longo da vida

• Programas que visam à eliminação dos preconceitos e ódio

• E-teaching: sistemas eletrônicos de inteligência para professores

• Computadores com inteligência extra-humana

• Micróbios artificiais para aumentar a inteligência

• O ensino da moral e a aplicação de novas métricas (inteligência emocional e inteligência espiritual)

• O cérebro global: o desenvolvimento de um conhecimento coletivo a caminho da formação de um cérebro global e de novos estágios da consciência humana

• Estudos inter-religiosos e inter-culturais

• O uso crescente de jogos, incluindo jogos on-line para o aprendizado

• Unidades modulares de conhecimento: ferramentas de gestão para que cada aluno possa baixar o que precisa

Todos esses futuros possíveis servem como sinalizadores de caminhos estratégicos que levem a um novo sistema de ensino e aprendizagem. Provavelmente muitos desses avanços não estejam disponíveis para todos em 2030, mantendo ainda as lacunas no conhecimento e nas capacidades e talentos. Questões de custo, interesses políticos e resistências de grupos de interesse, e, principalmente, o medo das instituições vigentes de perderem o poder instalado frente às novas capacidades educacionais. Esses são aspectos intangíveis que o estudo não ilustra com evidência e pressupostos de uma economia sustentável, que só poderá ser realidade através da formação de novas lideranças que nasçam de um novo sistema de educação.

O ambiente alimentar começou a mudar há dez anos com o advento das redes sociais, que passaram a criar redes de consumidores ávidos por informação e engajados com a ideia de vida mais saudável

A indústria de alimentos está passando pela maior transformação de toda a história.

São vários os fatores provocando abalos sísmicos no setor: a hiperconectividade que informa e intensifica a conscientização sobre o que é ou não saudável; os fenômenos globais como o aumento da população, a escassez de recursos naturais, as mudanças climáticas e a concentração econômica das megacorporações.

O ambiente alimentar começou a mudar há dez anos com o advento das redes sociais, que passaram a criar redes de consumidores ávidos por informação e engajados com a ideia de vida mais saudável.

28% dos brasileiros consideram que o valor nutricional é o mais importante na hora de consumir um produto e 22% das pessoas ouvidas em um levantamento disseram preferir alimentos naturais sem conservantes (Euromonitor).

Uma nova revolução alimentar

O conceito de segurança alimentar tem ido além das doenças provocadas por alimentos insalubres, mas também envolve o impacto dos seus ingredientes.

Os Noodles Maggi da Nestlé foram recolhidos das prateleiras durante seis meses nos Estados Unidos devido à presença excessiva de chumbo.

Depois desse incidente, as vendas desse produto caíram 80% na Índia.

Cadeias de fast-food estão ajustando seus menus, reduzindo a quantidade de substâncias químicas em seus pratos (Baum+Whiteman. Already, Chipotle Mexican Grill, Panera Bread, McDonald’s, Papa John’s e Subway, Wraps, Seletti, Go Fresh e Salad Creations).

A Chipote, a primeira cadeia de fast-food saudável, é um exemplo mexicano. O próprio Mcdonalds tem trabalhado nessa direção.

Sem falar das inúmeras outras estratégias para atender essas novas realidades que pessoas bem informadas e vigilantes impõem às empresas, sejam fornecedoras, produtoras ou varejistas.

A eliminação do glúten e do leite é outra revolução. Mesmo não precisando eliminá-los dos alimentos, muitos estão passando a descartá-los por prevenção de saúde, fazendo com que a indústria responda a essa exigência, lançando itens gluten-free ou sem lactose, e já são muitos nas prateleiras dos supermercados.

A Dinamarca se lançou no mundo adotando desde há dois anos a agricultura 100% orgânica. Outros países a seguirão em breve.

Alimento será moeda de troca?

À medida que cresce a população mundial, aumenta a demanda de alimentos. A previsão para os próximos 15 anos é de um aumento de 35 % na produção.

A escassez da água e as mudanças climáticas definem o destino das plantações e o aumento dos preços.

Ano passado, a mídia chinesa relatou que o governo tinha comprado soja, milho, trigo e arroz dos agricultores e armazenado em silos por todo o país para uso em casos de emergência, para evitar flutuações excessivas de preços.

O futurista-ambientalista Lester Brown, fundador do Worldwatch Institute, quando afirma algo, é ouvido por todo mundo.
Pois então é preciso prestar atenção ao que ele agora sinaliza ao afirmar que “uma perigosa geopolítica” de escassez de alimentos está surgindo.

Países agindo em seu próprio interesse, reforçando as tendências que ameaçam a segurança alimentar mundial.
Quer dizer então que a base da economia mundial poderá estar no valor dos alimentos? Haverá moedas lastreadas na produção de arroz, carne e cereais? Por que não?

Das mesas para as ruas

A magnitude desse cenário tem influenciado o ativismo político: os alimentos estão cada vez mais presentes nas passeatas em praças públicas e têm sido pauta e movimentos sociais, a exemplo da revolução de 2011 no Egito.

Daqui em diante mais e mais pessoas vão querer ter controle sobre a forma com que os alimentos são produzidos e consumidos.
Continuarão também se indignando com paradoxos de um mundo em desequilíbrio e extremamente desigual: enquanto 795 milhões passam fome, 2,1 bilhões lutam contra a obesidade e um terço do que é produzido se perde ou vai para o lixo.

O ativismo alimentar de entidades brasileiras como o IDEC e o Instituto Alana têm promovido campanhas com especial atenção para as crianças, já que 70% delas decidem os alimentos que querem que os pais lhes comprem.

Na contramão das escolhas, os monopólios

Na contramão do movimento cidadão capaz de mudar o rumo da indústria, aumenta a concentração das corporações aglomeradas por fusões e aquisições, segundo recente estudo lançado na Alemanha (Konzernatlas 2017), e isso fragiliza a amplitude de ação e de escolhas, incluindo a biodiversidade.

Aumenta o número de espécies alimentícias em extinção como a batata roxa, a jabuticaba, o jenipapo, o umbu, a pitanga, o pinhão, o pequi e o babaçu. Quanto maior a concentração produtiva controlada pelas empresas, mais padronizada a alimentação.

Que futuros irão nos alimentar?

As crianças que estão nascendo hoje serão talvez adultos com vaga lembrança de ter convivido com a fome, de terem comido carne de animais abatidos, de embalagens de rápido descarte.

As novas tecnologias prometem novos mundos na relação com os alimentos.

A era pós-animal: quase um terço das terras férteis são utilizadas para criação de gado e o consumo de carne deve crescer 70% até 2050 (Economist).

Mas o futuro já indica a possibilidade de consumirmos carne sem ter de devastar a natureza com pastagens.
Essa aventura redentora já começou na Holanda, que já desenvolveu um hambúrguer feito de células do músculo de uma vaca, o que podemos chamar de carne in-vitro ou carne de laboratório.

Uma única amostra de célula-tronco poderia produzir 20 mil toneladas de carne suficientes para preservar 440.000 cabeças de gado e, com isso, haveria uma redução de 45% na energia utilizada no ciclo produtivo.

Engenharia genética: a ideia de alimentos geneticamente desenhados ainda faz os ambientalistas torcerem o nariz.

Trata-se da criação de novas cadeias alimentares (plantas e animais), melhor dizendo, da manipulação de semente.
Apesar das controvérsias, muitos ainda advogam que essa será a saída para o combate da fome e poderá ser financeiramente viável nos próximos cinco anos.

Nutrigenômica: teremos alimentos personalizados para cada necessidade nutricional e condições de saúde individualizada. Afinal, estamos na era da individualidade genômica.

Realidade aumentada: dietas com base na realidade aumentada já estão em operação em Tóquio e funcionam com aparelhos visuais que mostram a comida em tamanhos bem maiores que o real para criar ilusões de consumação.

O sujeito pensa que está comendo um quilo de batatas fritas (pela imagem ampliada) mas de fato não ultrapassa 100 gramas.

O exército norte-americano pretende usar as impressoras 3D para customizar o alimento para cada soldado.
A NASA está explorando a impressão 3D de comida no espaço. A tecnologia poderia até mesmo acabar com a fome em todo o mundo.

A fabricante de chocolates Hershey já oferece produtos impressos e permite os consumidores fazerem sua própria impressão.

Fazendas biológicas: poderão funcionar como fábricas biológicas para produção de moléculas de alto valor agregado em larga escala e com baixo custo.

Plantas, animais e microrganismos geneticamente modificados para produção de medicamentos.

Um misto de sensações podemos sentir no contato com esses e outros futuros alimentares.

Entre incertezas e encantamentos, é inegável que temos adiante uma das mais impressionantes jornadas a serem trilhadas na história da humanidade.

Onde ela vai dar, tem muito a ver com o que juntos, bem informados, cidadãos conscientes e organizados em rede, iremos escolher. 

O futuro não existe até o momento de ser criado por você. Mas para criá-lo, procure não olhar para ele no singular. Experimente convertê-lo para o plural. Assim, você vai ver que o mundo não é só um mercado, que viver bem não depende apenas de tecnologias exponenciais, e que a felicidade não depende somente de crescimento econômico.

O Futurismo nunca esteve tão popular. Tenho gostado de ver esse aumento do número de adeptos, pesquisadores entusiasmados, praticantes convictos, palestrantes inspiradores e profissionais que se dedicam ao futurismo com muita competência em suas diferentes linhas. Mas, além do restrito foco instalado nas tecnologias, eu me incomodo com a excessiva atenção concentrada numa só linha de futurismo como essa da Singularity.

Nesta semana (23 e 24 de abril) está acontecendo o Summit da Singularity University Brasil, promovido pela HSM, com o auditório lotado. Fico satisfeita por sentir que no país do futuro com eternas crises, esse tipo de movimento estimula o pensamento antecipatório.

Observo o crescente frenesi pelas tecnologias exponenciais e uma vontade imensa de imaginar futuros robóticos, marcianos, digitais. Mas o futurismo vai muito além disso. É uma perspectiva de olhar para a mudança e de tomar decisões mais acertadas.

O futurismo não é singular nem Singularity

Nesses tempos de mudança exponencial, decidir com base no que já se conhece e em padrões do passado é negar o reconhecimento de que é preciso mudar mindsets e práticas perante o mercado e perante a vida. Aplaudo o sucesso da Singularity e seus seguidores.Mas é preciso ter plena ciência de que o futurismo não é singular nem Singularity.

Um campo de estudos tão imenso, tão complexo e tão rico não pode ser representado por apenas um centro de inovação sediado nos EUA. O futurismo em toda a sua ampla existência é pluralmente representado por grandes pensadores em quase 70 anos de história.

Como o Futurismo começou

O futurismo é legitimado pela história e pela prática, com base nos estudos do futuro (futures studies) que nasceram na Europa e nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial.

O mundo estava traumatizado por ter vivido duas grandes guerras em apenas 30 anos. Um tremendo choque como esse precisava de saídas e pensamentos novos sobre o que poderia acontecer. Otti Fletcheim chamou esse fenômeno de “futurologia”, que eu particularmente evito utilizar por ser normalmente confundido com adivinhação.

Na Europa, o olhar cultural

O holandês Fred Polak publicou The Image of the future (A Imagem do Futuro), obra sem precedentes sobre a relação das culturas com relação ao futuro. O francês Bertrand de Jouvenel autor da obra seminal A Arte da Conjectura e o inglês Gaston Berger criaram nos anos 50 o Centro Internacional de Prospectiva.

Nos Estados Unidos, os valores estratégicos

Foi também nos anos 50 que tudo começou nos Estados Unidos, nesse caso, pelo viés estratégico das tecnologias armamentistas.

Tendo vencido a guerra e com medo de perder o poder com a iminente guerra nuclear, o Pentágono e a Rand Corporation, centro estratégico que existe até hoje, foram atrás de grandes cérebros como Herman Kahn, Ted Gordon (que fundou o Projeto Millennium) e outros gênios futuristas para visualizarem futuros que indicassem a um grande planejamento estratégico nacional.

Tudo isso gerou cenários com simulações e hipóteses como se a terceira guerra estivesse acontecendo. Eles não tentaram prever nada; ao contrário, entraram em experiências imaginativas. E é com base nesse imaginário que o Futurismo até hoje se sustenta como ciência que prepara pessoas e organizações para as mudanças.

Ampliando territórios

Muito antes da Singularity, que a partir de 2008 começou a atrair empresários e gestores, o futurismo entrou no mundo empresarial nos anos 70, quando a Shell decidiu desenvolver cenários alternativos em plena crise do petróleo e foi a única corporação a sair da crise por ter se preparado antes que os concorrentes. Esse caso a consagrou como gestão inovadora através de modelos de prospectiva estratégica, que tem a ver com a aplicação do futurismo na gestão organizacional.

A história continua. Nos anos 60, movimentos futuristas começaram a surgir e criaram a World Future Society, que chegou a realizar, até dois anos atrás, conferências marcantes que aglutinavam milhares de pessoas do mundo todo, eu entre elas.

Nos anos 70, por um caminho mais acadêmico, foi criada a World Futures Studies Federation e o interesse no futuro alcançou duas universidades: a do Havaí e a de Houston, esta onde fiz meu mestrado sob a coordenação de Peter Bishop, que foi meu orientador.

O futurismo não é singular nem Singularity (Crédito: Shutterstock)

A partir dessas duas universidades, os estudos do futuro passaram a ter legitimidade acadêmica. Hoje existem outras escolas (além das do Havaí e de Houston) que oferecem programas de mestrado e doutorado. Num próximo artigo vou falar das escolas que estudam e ensinam o futuro pelo mundo.

A ideia aqui é deixar claro que o futuro não é singular. O futuro é plural. Por isso que a nomenclatura correta é futures studies e não future studies. Não tem só um pensamento que o represente; tem vários. Não tem nacionalidade definida; vai além de um país, abraça o mundo.

É estudado em várias línguas, não apenas o inglês. Não é unidisciplinar, é multi e interdisciplinar. Não trata apenas de tecnologias, porque avanços tecnológicos sem contexto social, cultural, político e ambiental esvaziam a existência humana e são perigosos.

Por essa pluralidade de tempos e perspectivas, resolvi estudar o futuro na virada do milênio (anos 2000-2001), a convite de Peter Bishop. Fiquei fascinada pela ideia de que, apesar do futuro não existir, ele pode ser criado. Não é destino nem singular, mas é plural e oferece escolhas.

Como o futurismo me pegou

Atuo como futurista profissional há 18 anos. Iniciei esse percurso em busca de novas perspectivas pessoais e profissionais. No começo dos anos 90, a futurista brasileira Lala DeHeinzelin, sempre uma inspiradora e amiga, começou a me mostrar publicações sobre o tema.

Em 1995, a jornalista Mirna Grzich (a musa da nova era) me ampliou os horizontes através da Imaginária, inesquecível conferência, que reuniu no SESC Pompéia futuristas, astronautas, artistas reunidos em linguagens e pensamentos de vanguarda.

Em 1999, em contato com Peter Bishop, coordenador do Programa de Estudos do Futuro da Universidade de Houston, resolvi fazer um mestrado nos EUA. Desde que me graduei e comecei a me apresentar como futurista, tive de explicar que eu não trabalhava com ocultismo nem sabia fazer previsões.

Foram necessários quase 20 anos para que aquilo que se confundia com esoterismo (com todo o respeito aos esotéricos), pudesse ser desmistificado e passasse a entrar nos diversos palcos brasileiros de summits, congressos, webinars e cursos.

Os grandes mestres

São grandes as contribuições de Peter Diamandis, Ray Kurzweil, Jason Silva, Michio Kaku, Amy Web, Ian Pearson, James Canton, Andy Hines, Thomas Frey, Jane McConigal, entre outros, que representam o futurismo da atualidade. Mas não podemos esquecer de quem abriu o pensamento lá atrás e inspirou as várias linhas de pensamento.

Tive o privilégio de estudar com alguns dos grandes mestres que essa “história do futuro” gerou. Um deles não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente nem de interagir: Alvin Toffler, que tornou o futurismo pop.

Mas pude beber diretamente da fonte com: Peter Bishop (que foi meu orientador de mestrado); Oliver Markley (raridade em futurismo, meu professor de métodos intuitivos); Wendy Schultz (referência mundial em métodos de foresight, minha professora de metodologias quali); Chris Jones (ex- presidente da World Futures Studies ederation e meu professor de futuros globais); Hazel Henderson ( visionária das novas economias); Barbara Marx Hubbard (futurista da transcendência).

O futuro não existe até o momento de ser criado por você (Crédito: Shutterstock)

Aprendi muito também numa relação mestre-discípula com Richard Slaughter (com sua visão integral), Jim Dator (e seus futuros radicais), Sohail Inaytatullah (que faz a ponte entre o futuro e a macrohistória), Riel Miller (futurista da UNESCO e da escola de “futures literacy”), Eleonora Masini (considerada a mãe do futurismo mundial), Guillermina Baena (expoente da prospectiva latino-americana), Ted Gordon (ex-Rand Corporation, cofundador do Projeto Millennium e um dos autores do método Delphi), Jerome Glenn (ex-Universidade das Nações Unidas, cofundador do Projeto Millennium e criador de métodos consagrados como a roda do futuro), e outros que certamente estão sendo injustiçados por eu ter me esquecido deles.

Preciso honrar essa história, o conhecimento que adquiri e que compartilho através dos meus artigos e cursos abertos a toda a sociedade.

O futuro no plural

O futuro não existe até o momento de ser criado por você. Mas para criá-lo, procure não olhar para ele no singular. Experimente convertê-lo para o plural. Assim, você vai ver que o mundo não é só um mercado, que viver bem não depende apenas de tecnologias exponenciais, e que a felicidade não depende somente de crescimento econômico.

Assim como a inovação não tem só um endereço. Além do Silicon Valley (EUA), existem grandes centros mundiais na Suécia, em Israel, na Finlândia, na China, na Coreia do Sul, no Chile e, acreditem, no Brasil – não somente nas instituições como em iniciativas populares.

A pluralidade do futuro pode transformar sua visão de mundo e multiplicar suas ideias. Pode até mudar o rumo da sua história, assim como mudou a minha.

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